Berlim, 20 de Agosto de 2011
Normalmente a saudade era algo que eu pensava que sentia quando vivia em Lisboa e tinha a minha família a duzentos quilómetros de distância. Hoje que vivo a quatro mil sinto que a saudade é muito mais que isso. É a necessidade de um abraço de um amigo, da comida da minha mãe e de conversar com a minha irmã. Saudade é mais de que um sentimento, é um aperto no coração e uma vontade incontrolável de algo que eu nem sei bem o que é.
Hoje faz precisamente um mês que vim viver para Berlim e que enredei por estas vidas alemãs mais frias e com muito menos sol. Mas que sabia que o devia fazer.
Sempre fui muito apegado á minha família, sempre dei importância aos almoços com os meus pais e aos sorrisos do meu sobrinho porque isso fazia me sentir reconfortado dentro do meu espaço e amado por aqueles que eram mais próximos.
Nesta minha nova vida, não existe arrependimento. Existe algo que chamado de “uma outra noção”, estou a crescer a cada dia passa mas ainda me sinto demasiado “pequeno” para tamanhas mudanças.
Esta adaptação que ainda decorre, é algo que nunca pensei sentir. Deslocação social, não perceber uma língua e não conseguir comunicar quando simplesmente precisava de umas simples batatas e três cenouras. Nos primeiros dias sentia-me a leste, sentia que este não era o meu lugar e que simplesmente iria voltar para casa depois de umas curtas férias na Alemanha.
Quando comecei a frequentar a escola e conhecer outras pessoas na mesma situação que eu estava, as coisas começaram a mudar. O Inglês salvou me a vida, possibilitando-me comunicar com os meus colegas e com outras pessoas que estavam por perto.
Sentir-me sozinho mesmo quando não o estava, era o pão-nosso de cada dia e dizer “olá” ou “adeus” em alemão era para mim um objectivo alcançado.
Dia após dia, conheci pessoas de todo o mundo. O mais difícil era vê-las partir, ninguém ficaria tanto tempo como eu a estudar alemão. Então quando começava a sentir me integrado num grupo alguém voltava para casa e eu ali continuava, nesta montanha-russa de amigos que iam e vinham.
Até á pouco tempo apercebi-me que sou capaz de fazer muitas mais coisas que imaginava. Alguns dias sozinho em Berlim fizeram me perceber que a dependência era algo que tinha que deixar de lado e entregar-me aquilo que eu realmente queria fazer.
Desde muito novo que sai de casa e fui estudar para Lisboa deixando a minha família no Alentejo, renovando um circulo de amigos e conhecer um outro mundo que quando vivia no Alentejo era algo que sonhava.
Quando terminei o meu ciclo de realizações em Lisboa, pensei que fosse um bom passo vir para Berlim e renovar de novo todo este conhecimento cultural. Lisboa para mim esta cheia de boas recordações, de amigos para a vida, de pessoas que marcaram e estiveram na minha história. O Alentejo guardo-o no mesmo lugar cheio de outras boas recordações de uma infância cheia de abraços da minha mãe e carinhos do meu pai.
Quando me apercebi que tudo isto era verdade, que não iria voltar para “casa” de malas e bagagens e dizer “voltei”, o clique foi mais difícil. Aprendi uma lição para a vida “não me preocupar tanto” deixar as coisas acontecerem, não tentar controlar o que não é possível de controlar e saber que mesmo que algo aconteça eu tenho quem me ame, esteja ao meu lado esteja a quatro mil quilómetros de distância.
Durante a minha infância sonhei com algo que via na televisão e lia nas revistas, sonhava com uma vida que não era vida era um sonho. Algo não real, que não me iria fazer feliz. Hoje sonho com coisas mais terrestres com algo que eu sei que posso alcançar com as minhas mãos. Se me perguntaram se me sinto sortudo? Sim sinto-me. Por um simples motivo de que com os meus vinte e um anos realizei alguns dos sonhos que tinha.
Já fui mais egoísta e sei que já tomei atitudes erradas com outras pessoas, que já desiludi pessoas que amava e afastei aquelas que me queriam bem, já me arrependi e não sofro com o passado porque sei que existem coisas mais importantes para o fazer: viver o presente.
Hoje sinto-me mais desprotegido, mais vulnerável ao que vem de fora e das pessoas que não conheço, de um pais que não é o meu e que tanta gente diz ser “perfeito”. Para mim não existe “perfeição”, existe equilíbrio, sensatez e civismo. E ai confesso que o existe por estas bandas.
Um pais mais frio, mas com pessoas calorosas e que sabem estar e conversar, que sabem receber e fazer-nos sentir confortáveis. Deixei de lado o mito do alemão que bebe cerveja e que grita, que é violento e frio. Não digo que não os haja mas que até agora os não encontrei, não.
Tenho saudades do meu Portugal, do sol e dos pasteis de nata. Tenho saudades das minhas tardes na Baixa e das noites cheias de loucura com os meus amigos. Tenho saudades do meu Alentejo e dos lanches ao Domingo com a família, tenho saudades de tudo e mais alguma coisa. Uma saudade saudável que me faz acreditar que estou aqui por um motivo maior, por uma vida melhor e por uma razão especial: ser feliz.
Parece-me que um mês depois o saldo é positivo! E assim há-de continuar! Espero de verdade que te corra tudo super bem aí por Berlim! :)
ResponderEliminarO Tiago que te levou à escola do Estoril.